Os senhores não sabem, minha dinda não viu, mas esse artilheiro que vos fala, ala de pulmões fortes, pivô retado, fixo avexado, meia direita organizador de baba, esse cronista aqui que vos fala, vulgo eu, foi goleiro quando criança. Ainda hoje gosta de ir pro gol fazer raiva aos atacantes. E pego pênalti. Comecei a ver futebol a partir da pequena área, onde então jogava meu pai. Comecei a ver aqueles caras solitários ali no gol, como um sujeito que jogava de calças, esquisitíssimo, fazendo defesas incríveis no gol do São Paulo. Um galego esquálido no gol da seleção, taciturno, quase depressivo, tristonho em sua roupa verde musgo. E outros. Ficava vendo o que eles faziam, como pareciam praticar um esporte diferente dos demais. Defender quando os outros marcam, jogar com as mãos, ficar parados, ver o gol do seu time do ponto mais distante. Esperar.
Quem viu isso, quem via futebol em 90 - 93, sabe que havia uma escola de goleiros que era capaz de acabar com qualquer empreitada nossa futebol afora, e ela se personificava em um rapaz feioso chamado Goycochea. Até ganhar a copa de 94, o Brasil tremia na marca da cal ali na grande área, e tremia feio. De Zico a Boiadeiro, de Copa do Mundo a Copa América, o Brasil tremia na disputa de pênaltis.
Aí veio 1994. Posso garantir que nenhum brasileiro comemorou o apito que levou a final daquela copa para os pênaltis. Ninguém pensou "É nóis". Todo boleiro brasileiro viu um filme conhecido passar diante dos seus olhos, e nele o Brasil não ganhava. Nele havia um Goycochea, um Zico, um Boiadeiro, uma boiada de bolas para as mãos dos senhores goleiros. Aí veio o moço magro e cabisbaixo que ficava no nosso gol. O primeiro penal italiano foi pelos ares, na mesma linha do famosíssimo chute de Baggio. Mas Márcio Santos foi lá e meteu pra fora pra ser diplomata. Naqueles tempos em que Galvão Bueno reluzia em nossos lares, a regra era a seguinte: Se o goleiro pula, deveria ter esperado, ou olhado o lado certo. Se o goleiro fica, poderia ter desviado a bola com o pensamento. Se defendeu, fez certinho como ele mandou. Digo isso porque foi assim mesmo que ele disse quando a Itália converteu sua cobrança: "Pra quê se mexeeeeerrrr???". Em seguida, ele manda o goleiro sair na bola, mas o pênalti também é convertido. Aí Taffarel foi lá e acabou para sempre com a maldição da disputa de pênalti.
Taffarel, 1994
Para sempre? Em 98, na Copa seguinte, logo ali em frente, o Brasil chegou às semi-finais para jogar contra a Holanda. Taffarel voltou, pegou mais dois pênaltis e o Brasil foi à final. Daí em diante, o brasileiro ganhou uma arma. Tá escrito na cara do goleiro do Brasil, na cara de qualquer goleiro brasileiro: Eu vou pegar. Os goleiros latinos apontam para o canto onde o atacante deve chutar, quando na verdade eles só pegam do outro lado. Se o atacante titubear, foge do canto sugerido peloadversário, mas entregam a bola no canto onde verdadeiramente o rapaz sabe defender. Nós não. Nós não cuspimos no atacante, nós não chutamos a bola na marca. Nós ficamos de pé, de braços abertos, e uma força nos multiplica em mil, e nossos olhos invadem a mente do adversário: Eu vou pegar. E pegamos.
Taffarel, 1998.
Depois de Taffarel, Dida. Júlio César. Doni. Jéferson. Mas Júlio César sagrou-se hoje um goleiro épico. Em 2004, no Peru, numa Copa América que seria ofuscada pela campanha de 2006, ele foi lá e pegou o pênalti de D'Alessandro, ficou gigante no gol e o Brasil ganhou em cima da Argentina.
Passaram-se dez anos. Hoje ele fez de novo, mas já tinha feito contra o Uruguai ano passado, já pegou tantos outros. Mas hoje dependíamos dele. Estávamos ali nós que gostamos de futebol, de seleção, de copa e de torcer, esse grupo seleto, nós estávamos ali, pisndo a linha daquele gol.
Júlio César, 2014.
20 anos desde 1994. Desde Taffarel, desde Dida e Doni e esse mesmo Júlio garantindo Copas América. Pode ser que no próximo jogo tudo dê errado, mas nesse falamos da minha vida de goleiro. Porque se eu não fui goleiro de seleção, eu estava lá com eles, eu defendi com eles, eu entrei na cabeça dos caras pra fazer bagunça, eu pulei no canto direito, no canto esquerdo, no meio, eu tirei com os olhos. Nos meus babas, quando eu pego a bola, Galvão grita Taffarel. Quando uma bola de papel ia cair mas eu peguei, grito Zetti. Quando pulo na cama, plástico, voando, calmo como Bruce Lee, é Dida. Graças a esses rapazes, nossa sorte se tornou diferente. Nem por isso eu não quase morrí, mas por eles estamos vivos ainda nessa copa.
Que grata surpresa! Quer dizer que o nosso Bahia perdeu um GOLEIRÃO??? Mas, ganhamos suas poesias e crônicas. O goleiro que povoa minha mente é Taffarel "Vai que é sua Taffarel" com direito a voz do Galvão... Rsrs.
ResponderExcluirHoje, além de Taffarel povoa Lomba, quando assisto a qualquer jogo grito: "Lomba pegaria essa bola!"
Paulinho está na escolinha de futebol e disse que está treinando para ser goleiro. Eu falei: "Paulinho Lomba, você será o próximo goleiro do Bahia, não me desaponte!!!" Ele sorriu!!!
Saudades... Beijinhos