quinta-feira, 3 de julho de 2014

o futebol e o longo instante

Depois de ter estudado não-lugares, preocupado em entender como o "estar ali" perde sentido, fiquei imaginando como poderia levar esse problema do da categoria espaço para a categoria tempo. Mas também estava cansado de ficar explicando para as pessoas que de fato não existe um não-lugar absoluto, universal e localizado. O tempo, então, como analisar o tempo? O tempo é pasteurizável? Bem, as horas voam na sexta-feira à noite e se arrastam na segunda-feira quando estamos trabalhando. O leite demora anos para ferver, embora não mais que cinco ou dez minutos, mas as férias passam depressa demais, embora possam durar três meses (piada interna). Se tentamos viver intensamente, o tempo corre, se tentamos intensamente passar o tempo, ele se arrasta.
Então falemos de futebol. Uma partida tem dois tempos de 45 minutos, um intervalo de quinze entre eles, e só. Alguém que acredita nisso está enganando a si mesmo. Afogado em ignorância, vaga sobre a terra a ela alheio, perdido. Uma partida de futebol tem infinitas possibilidades de tempo. A bola rola, mas o andamento pode ser de copa, de amistoso, de arquirrival, de freguês, de estréia, de final. De prorrogação, de vingança, de volta. Definida a ocasião, temos o andamento. Um gol na saída, um jogo estudado, um cartão vermelho no primeiro tempo, uma bola na trave para acordar o time. 
Estamos perdendo, então cinco minutos é o nosso horizonte. Vai virar. Brocaremos. Se cinco minutos já se passaram, pedimos que o Senhor Deus do Tempo nos conceda em sua infinita bondade a honra de que este instante-já se torne aquele maravilhoso minuto em que marcamos um gol. Se estamos ganhando, nos agarramos a esse instante triunfal, sabemos que ele está por um segundo, então podemos sentí-lo aqui-já, mas sabemos que um longínquo dia virá, talvez no próximo segundo, entretanto, em que não estaremos mais ganhando, mas temos a esperança que venha o próximo gol. O que nos levou ao gol é um mistério profundo, mas sentimos que podemos fazer esse alinhamento se repetir, talvez entoando cânticos, talvez erguendo os braços, talvez apontando uma câmera para o campo. Podemos elastecer o tempo, podemos comprimir o tempo, podemos repetir o tempo, podemos apagar o tempo. 
Agora que conhecemos as propriedades do tempo e sua aplicação no futebol, ou as características do futebol aplicáveis à grandeza tempo, quero falar de algo que acontece todos os dias para o torcedor comum, mas que o torcedor mais ocasional percebe em momentos mais agudos, como a Copa do Mundo. Quem torce para um clube, por menor que possa ser o seu histórico de glórias, lembrará de um instante perdido há 10, 30, 50 anos, num dia de sol ou chuva, num jogo assim ou não, em que um jogador de nome fulano chutou uma bola que pareceu planar no ar, viajando no tempo de uma respiração, desviando-se para longe das mãos do goleiro, arqueiro ou guarda-redes, para ir morrer, ou cair, ou descansar mansa e graciosa no fundo das redes, ou como um foguete cujo estampido ainda se escuta. Esse dado momento ainda está vivo. É o chute de Bobô, é o gol de Raudinei, é a cabeçada de Dadá, é a mão de Maradona, é o drible de Garrincha. 
O longo instante, o momento eterno, embora fugaz, nos conecta a um tempo pretérito, mas ele não é um dado. Ele não parece perder certas propriedades, e a prova é que nós pensamos nele, sentimos o cheiro da grama ou da pipoca, sentimos alegria ou dor, somos campeões ou derrotados. Já não joga o atacante, mas seus gols estão acontecendo agora se pensamos nele. Pelé rola para o capitão Carlos Alberto, gol do Brasil. Ouvimos a vinheta, os jogadores se abraçam. Pelé rola para o capitão Carlos Alberto, gol do Brasil. Ouvimos a vinheta, os jogadores se abraçam. Pelé rola para o capitão Carlos Alberto, gol do Brasil. Ouvimos a vinheta, os jogadores se abraçam. A memória permite replay, o instante não é mais fugaz, temos outra relação com o tempo. Mas o replay é a instrumentação do instante, é bom que se diga, ele não é o instante. Não é o vídeo do gol de Raudinei que buscamos, mas o gol de Raudinei quando a torcida já ia no dique, quando os invisíveis já se achavam no direito de comemorar, quando o rádio pifava, quando já não podíamos acreditar, o gol redentor. 
Quem vê e se entrega obtém sua recompensa. Lembraremos deles por muitos anos. Como torcedores, temos certeza de que podemos controlar o curso do destino, mandar nos andamentos da partida, conduzir o jogo como uma orquestra, no estádio ou via embratel. Isso é torcer, essencialmente. Para nós, brasileiros, este é o momento histórico mais anunciado de todos os tempos. Se somos torcedores, queremos um momento marcante, queremos morrer de alegria, ali, fulminados. Abominamos a agonia, não queremos jamais que esse instante de que certamente falaremos para sempre seja uma lembrança doída. Se não somos, queremos que os torcedores alcancem a razão através do sofrimento, mas por mais que juremos amor à sapiência, ao rock ou ao Deus da assembléia, nos encontramos diante de um momento intenso, e podemos fraquejar livremente após as cobranças de pênaltis. Nem estava olhando, nunca vai esquecer.

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